sábado, 16 de outubro de 2010

Por outro lado...Neurótica, eu?

A garota gostava daquelas reuniões da mãe com as tias, em que ficavam relembrando mil coisas. Sempre surgiam histórias hilárias e, envolvendo sua mãe, ela própria tinha uma coleção para contar.
A mãe era a mais nova das quatro irmãs, que se divertiam contando como ela colocou em prática o "como enlouquecer uma família” quando os dois filhos nasceram.
Não, não eram gêmeos e sim, a revolução se instalou no nascimento dos dois, que ocorreu com quase cinco anos de diferença.
Ela olhava para a mãe e pensava que, sendo com os dois, nem a desculpa de “marinheira de primeira viagem” ela poderia usar.
Bom, conhecendo a mãe como ela conhecia, sabia que ela agiria da mesma forma não importa quantos filhos tivesse.
- Logo que os filhos nasciam – começou uma das tias - ela ficava o máximo de tempo possível olhando para aquele serzinho minúsculo e, literalmente, ignorava quem estivesse por perto, a não ser que o desafortunado ser tentasse sugerir algo como colocar a criança no berço, por exemplo.
- O pobre palpiteiro recebia na hora um olhar de alerta, acompanhado de um discurso sobre o vínculo de mãe e filho, e que só ela, “a mãe”, conseguiria atender suas necessidades, trocar a fralda, dar banho e embalar do jeitinho que ele gostava.
A mãe interrompeu nesse ponto, com uma mão na cintura e outra segurando metade de um pão de queijo, mandou:
- Isso é cuidado, zelo, certo?
A interrupção foi ignorada e a história prosseguia.
- Todos que tentavam de alguma forma interferir ou minimizar o relacionamento tão especial eram devidamente ignorados por ela.
As tias riam relembrando da pena que sentiam das pessoas que chegavam com palpites e receitas de chazinhos e remedinhos para o bebê. Recebiam um olhar de congelar e tratavam logo de “encurtar” a visita.
Nesse ponto, a mãe já desistia de interromper e dava risada tentando manter um ar de “como vocês exageram”, mas sem muito êxito.
As tias prosseguiam, às gargalhadas, contando que à noite, quando o bebê ficava quieto por um período de duas horas, a mãe ia ver se estava bem, mexia nele, examinava as roupinhas, os lençóis, à procura de algo que pudesse incomodá-lo.
- Ah, sim – lembrou uma das tias - também checava a respiração, ficava tocando o bebê até vê-lo movimentar-se.
- Sem contar que convencê-la a assistir um filme na TV, claro, não colocaria em risco a integridade física e emocional do bebê era, praticamente, uma missão impossível. – completou a outra tia.
- Com a babá eletrônica ao lado, obviamente! – arrematou a terceira.
A garota observava a mãe que, conformada, deixava a história continuar, rindo com as outras, até que uma delas mandou:
- Ainda bem que essa neura durava só uns quatro ou cinco meses!
A garota olhou para a mãe que, mexendo no brinco, ergueu uma sobrancelha e disparou:
- Neurótica, eu?! Como são exageradas!
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