A garota gostava daquelas reuniões da mãe com as tias, em que ficavam relembrando mil coisas. Sempre surgiam histórias hilárias e, envolvendo sua mãe, ela própria tinha uma coleção para contar.
A mãe era a mais nova das quatro irmãs, que se divertiam contando como ela colocou em prática o "como enlouquecer uma família” quando os dois filhos nasceram.
Não, não eram gêmeos e sim, a revolução se instalou no nascimento dos dois, que ocorreu com quase cinco anos de diferença.
Ela olhava para a mãe e pensava que, sendo com os dois, nem a desculpa de “marinheira de primeira viagem” ela poderia usar.
Bom, conhecendo a mãe como ela conhecia, sabia que ela agiria da mesma forma não importa quantos filhos tivesse.
- Logo que os filhos nasciam – começou uma das tias - ela ficava o máximo de tempo possível olhando para aquele serzinho minúsculo e, literalmente, ignorava quem estivesse por perto, a não ser que o desafortunado ser tentasse sugerir algo como colocar a criança no berço, por exemplo.
- O pobre palpiteiro recebia na hora um olhar de alerta, acompanhado de um discurso sobre o vínculo de mãe e filho, e que só ela, “a mãe”, conseguiria atender suas necessidades, trocar a fralda, dar banho e embalar do jeitinho que ele gostava.
A mãe interrompeu nesse ponto, com uma mão na cintura e outra segurando metade de um pão de queijo, mandou:
- Isso é cuidado, zelo, certo?
A interrupção foi ignorada e a história prosseguia.
- Todos que tentavam de alguma forma interferir ou minimizar o relacionamento tão especial eram devidamente ignorados por ela.
As tias riam relembrando da pena que sentiam das pessoas que chegavam com palpites e receitas de chazinhos e remedinhos para o bebê. Recebiam um olhar de congelar e tratavam logo de “encurtar” a visita.
Nesse ponto, a mãe já desistia de interromper e dava risada tentando manter um ar de “como vocês exageram”, mas sem muito êxito.
As tias prosseguiam, às gargalhadas, contando que à noite, quando o bebê ficava quieto por um período de duas horas, a mãe ia ver se estava bem, mexia nele, examinava as roupinhas, os lençóis, à procura de algo que pudesse incomodá-lo.
- Ah, sim – lembrou uma das tias - também checava a respiração, ficava tocando o bebê até vê-lo movimentar-se.
- Sem contar que convencê-la a assistir um filme na TV, claro, não colocaria em risco a integridade física e emocional do bebê era, praticamente, uma missão impossível. – completou a outra tia.
- Com a babá eletrônica ao lado, obviamente! – arrematou a terceira.
A garota observava a mãe que, conformada, deixava a história continuar, rindo com as outras, até que uma delas mandou:
- Ainda bem que essa neura durava só uns quatro ou cinco meses!
A garota olhou para a mãe que, mexendo no brinco, ergueu uma sobrancelha e disparou:
- Neurótica, eu?! Como são exageradas!
sábado, 16 de outubro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
A Mala
Maria Clara estava estranhando a demora da mãe. Quando falou com ela pelo celular ela disse que já estava a caminho de casa e só passaria rapidinho na padaria.
- Rapidinho? – pensou a garota – pela demora ela deve ter comprado a padaria com funcionários e tudo!
- O que você falou? – perguntou o irmão que havia conseguido folga no trabalho, emendando o feriado na faculdade e estava passando uns dias em casa.
Ela nem tinha percebido que estava pensando alto. Disse ao irmão que estava estranhando a demora da mãe.
- Relaxa, logo ela chega. Deve ter encontrado alguma amiga.
Essa caaalma do irmão às vezes era irritante. Tudo bem, ela estava ansiosa porque assim que a mãe chegasse iriam comprar o tênis divino, perfeito, maravilhoso que ela queria tanto.
Tudo bem, também, que ela era um pouco ansiosa e o irmão não era tão calmo.
Nesse momento o interfone tocou e Maria Clara correu para atender. Era “Seu” Geraldo, o porteiro, avisando que sua mãe estava subindo e aconselhando os dois a esperá-la no elevador, pois ela havia levado um tombo na rampa de acesso à portaria do prédio.
Maria Clara e o irmão correram para o elevador no momento em que ele parava no andar. O irmão abriu a porta e Maria Clara viu a mãe um pouco pálida, um braço agarrando sua pasta de trabalho e no outro o que restava de algumas coisas que um dia tinham sido sacolas de padaria.
- Mãe do céu! – exclamou a garota. E os dois quase ao mesmo tempo:
- O que aconteceu? – enquanto examinavam a mãe de alto a baixo, observando o braço machucado, esfolado, passando pelo joelho direito onde a calça estava rasgada.
Ela fungou em resposta e foi saindo do elevador mancando enquanto entregava a pasta a um e o que sobrara das sacolas ao outro. O filho, numa tentativa de apoiá-la para andar segurou no seu braço.
- Uiiiiii – o grito da mãe fez com que retirasse a mão rapidamente. Como a expressão dela não deixasse dúvidas sobre o que aconteceria a quem fizesse mais alguma pergunta os irmãos entreolhando-se e, num entendimento mútuo, foram seguindo a mãe até o apartamento respeitando seu silêncio. Bem, na verdade estavam respeitando seu olhar de “coitado de quem perguntar algo”.
Observaram, ainda em silêncio, ela dirigir-se ao quarto e em seguida ouviram a porta do banheiro sendo trancada e, em seguida o barulho da água do chuveiro.
Correram então para a cozinha e passaram ao exame do conteúdo das sacolas; pão integral que parecia ter sido pisoteado por uma multidão insana. Bom, a garota nunca havia visto uma multidão pisotear um pão, mas imaginava que seria esse o resultado.
Num saquinho onde antes deveria ter biscoitos de polvilho via-se agora uma espécie de farinha; a torta de banana parecia ter sido repartida em pedaços desiguais por um homem das cavernas. O pote de sorvete, sem nenhum dano aparente, foi imediatamente colocado no freezer. Bom, perda total para mousse de maracujá.
Voltaram à sala no momento em que a mãe, de banho tomado, shorts, regata e cabelos molhados exclamando “ais”, “uis” sentava no sofá com a caixa de remédios ao lado.
Lá havia tudo que era necessário quando aconteciam “pequenos acidentes” e a mãe continuava a guardá-la na parte mais alta do armário, como fazia quando eram crianças.
Depois de ajudarem-na com os curativos e conferirem, ainda quietos algumas manchas roxas nos braços, pernas e até no pé, Tiago, ou “Ti” como era chamado arriscou:
- Linda, quer contar como você caiu?
- Lá vem o Ti com a conversinha doce dele! – pensou, desta vez baixo mesmo, Maria Clara. Era incrível! Tudo bem, ele tinha o hábito de chamar a mãe e às vezes ela própria de “Linda”. Mas esse tratamento era usado com muita freqüência quando a coisa estava feia para o lado dele ou numa situação...hã...delicada, como esse tombo da mãe.
A mãe suspirou e olhando para os dois como se fosse cair no choro começou:
- Bem, eu estava com pressa, morrendo de fome e queria chegar logo em casa. O acesso à portaria era mais fácil pela rampa, pois os meninos do “nono” estavam sentados nos degraus da escada.
-Ai, não, os meninos do nono, do nono andar, não! – pensou Maria Clara, alto demais, dessa vez.
O irmão lançou-lhe um olhar como que indagando sobre o amor que ela tinha à vida enquanto a mãe parava de falar e olhava para ela fixamente desafiando: “atreva-se a dizer mais uma palavra.”
- Aimeudeus, furo duplo – pensou, desta vez bem baixinho mesmo, a menina; o irmão não podia ouvi-la sequer falar de garotos – coisa de garoto/irmão/ciumento. E a mãe, bom, a mãe pelo estado em que se encontrava queria que se danassem os meninos do nono que, em situações normais achava muito simpáticos e educados.
- Continua, Linda – incentivou o filho com um olhar de advertência à irmã.
- Eu já estava na metade da rampa quando aquela senhora do 12º, que vive viajando, apareceu com uma mala imensa.
- Lembro que ela sorriu para mim e quando virou para falar algo para o porteiro, esqueceu de segurar a mala, que desceu pela rampa, me atropelou e me jogou em cima da floreira.
- Eu estava com as mãos ocupadas e não deu tempo de amortecer a queda. Quando eu vi, o “seu” Geraldo e os meninos do nono estavam lá tentando me levantar.
- Ai, não mãe! Os meninos do nono viram você se estabacar na portaria do prédio??!!! – falou alto a garota, agora sem nem lembrar dos machucados da mãe.
- Maria Clara – falou a mãe com aquela calma assustadora que as mães conseguem manter quando querem esganar alguém.
- Eles não só me ajudaram a levantar como também a recolher as coisas que eu carregava e estavam espalhadas pela entrada do prédio! E foram muito educados, como sempre. E, também, ficaram mais preocupados comigo do que você parece estar agora!
- Foi mal mãe, é claro que eu me preocupo – falou a garota pensando que mãe com esse tipo de chantagem consegue fazer um estrago maior que o exterminador do futuro.
Mas, então, o Tiago tinha que mandar a dele:
- É isso mesmo, Maria Clara, como você pode pensar nisso agora?
E prosseguiu:
- Mas, mãe, diz uma coisa...hum...você caiu de costas para a rua ou para a floreira?
Antes mesmo de ver a reação da mãe a garota pensou:
- Yes! – Agora baixou o garoto/filho/ciumento e sem esperar mandou:
- O que é isso Tiago??!! Nessa situação e você preocupado com quem pode ter olhado para...hã...as costas dela?
- Chegaaa! – agora a mãe gritou – eu quero comer! Vou comer tudo, todas as calorias que tenho e que não tenho direito!
Levantou rápido do sofá e mancando, com “ais”, “uis” pelo caminho foi até a mesa da cozinha.
Os dois, Tiago e Maria Clara, ficaram em silêncio sem coragem de acompanhar a mãe e não querendo estar por perto quando ela visse “tudo” que ia comer.
Silêncio.
De repente ouvem um “ai” acompanhado de uma risada. Em seguida um “ui” já no meio de uma gargalhada e a mãe surge na sala com o pote de sorvete e três colheres nas mãos.
Os dois começaram com uma risada tímida e já soltavam gargalhadas enquanto Tiago corria para salvar o pote de sorvete que quase caía das mãos da mãe.
A mãe ria enquanto fazia caretas de dor.
- Vocês não imaginam a cara do “seu” Geraldo, coitado! E os meninos, então? Dois me ajudando e o outro correndo para pegar a mala que continuava deslizando pela calçada!
Enquanto os três atacavam o pote de sorvete, Tiago ligava para pedir uma pizza.
Maria Clara olhava feliz para o rosto agora sorridente da mãe que vingava-se do tombo tomando sorvete direto do pote!
- Os meninos do nono... Meu tênis! - pensou a garota. Mas, olhando para o estado da mãe decidiu:
- Ah! Abafa... - e partiu animada para o pote de sorvete.
- Rapidinho? – pensou a garota – pela demora ela deve ter comprado a padaria com funcionários e tudo!
- O que você falou? – perguntou o irmão que havia conseguido folga no trabalho, emendando o feriado na faculdade e estava passando uns dias em casa.
Ela nem tinha percebido que estava pensando alto. Disse ao irmão que estava estranhando a demora da mãe.
- Relaxa, logo ela chega. Deve ter encontrado alguma amiga.
Essa caaalma do irmão às vezes era irritante. Tudo bem, ela estava ansiosa porque assim que a mãe chegasse iriam comprar o tênis divino, perfeito, maravilhoso que ela queria tanto.
Tudo bem, também, que ela era um pouco ansiosa e o irmão não era tão calmo.
Nesse momento o interfone tocou e Maria Clara correu para atender. Era “Seu” Geraldo, o porteiro, avisando que sua mãe estava subindo e aconselhando os dois a esperá-la no elevador, pois ela havia levado um tombo na rampa de acesso à portaria do prédio.
Maria Clara e o irmão correram para o elevador no momento em que ele parava no andar. O irmão abriu a porta e Maria Clara viu a mãe um pouco pálida, um braço agarrando sua pasta de trabalho e no outro o que restava de algumas coisas que um dia tinham sido sacolas de padaria.
- Mãe do céu! – exclamou a garota. E os dois quase ao mesmo tempo:
- O que aconteceu? – enquanto examinavam a mãe de alto a baixo, observando o braço machucado, esfolado, passando pelo joelho direito onde a calça estava rasgada.
Ela fungou em resposta e foi saindo do elevador mancando enquanto entregava a pasta a um e o que sobrara das sacolas ao outro. O filho, numa tentativa de apoiá-la para andar segurou no seu braço.
- Uiiiiii – o grito da mãe fez com que retirasse a mão rapidamente. Como a expressão dela não deixasse dúvidas sobre o que aconteceria a quem fizesse mais alguma pergunta os irmãos entreolhando-se e, num entendimento mútuo, foram seguindo a mãe até o apartamento respeitando seu silêncio. Bem, na verdade estavam respeitando seu olhar de “coitado de quem perguntar algo”.
Observaram, ainda em silêncio, ela dirigir-se ao quarto e em seguida ouviram a porta do banheiro sendo trancada e, em seguida o barulho da água do chuveiro.
Correram então para a cozinha e passaram ao exame do conteúdo das sacolas; pão integral que parecia ter sido pisoteado por uma multidão insana. Bom, a garota nunca havia visto uma multidão pisotear um pão, mas imaginava que seria esse o resultado.
Num saquinho onde antes deveria ter biscoitos de polvilho via-se agora uma espécie de farinha; a torta de banana parecia ter sido repartida em pedaços desiguais por um homem das cavernas. O pote de sorvete, sem nenhum dano aparente, foi imediatamente colocado no freezer. Bom, perda total para mousse de maracujá.
Voltaram à sala no momento em que a mãe, de banho tomado, shorts, regata e cabelos molhados exclamando “ais”, “uis” sentava no sofá com a caixa de remédios ao lado.
Lá havia tudo que era necessário quando aconteciam “pequenos acidentes” e a mãe continuava a guardá-la na parte mais alta do armário, como fazia quando eram crianças.
Depois de ajudarem-na com os curativos e conferirem, ainda quietos algumas manchas roxas nos braços, pernas e até no pé, Tiago, ou “Ti” como era chamado arriscou:
- Linda, quer contar como você caiu?
- Lá vem o Ti com a conversinha doce dele! – pensou, desta vez baixo mesmo, Maria Clara. Era incrível! Tudo bem, ele tinha o hábito de chamar a mãe e às vezes ela própria de “Linda”. Mas esse tratamento era usado com muita freqüência quando a coisa estava feia para o lado dele ou numa situação...hã...delicada, como esse tombo da mãe.
A mãe suspirou e olhando para os dois como se fosse cair no choro começou:
- Bem, eu estava com pressa, morrendo de fome e queria chegar logo em casa. O acesso à portaria era mais fácil pela rampa, pois os meninos do “nono” estavam sentados nos degraus da escada.
-Ai, não, os meninos do nono, do nono andar, não! – pensou Maria Clara, alto demais, dessa vez.
O irmão lançou-lhe um olhar como que indagando sobre o amor que ela tinha à vida enquanto a mãe parava de falar e olhava para ela fixamente desafiando: “atreva-se a dizer mais uma palavra.”
- Aimeudeus, furo duplo – pensou, desta vez bem baixinho mesmo, a menina; o irmão não podia ouvi-la sequer falar de garotos – coisa de garoto/irmão/ciumento. E a mãe, bom, a mãe pelo estado em que se encontrava queria que se danassem os meninos do nono que, em situações normais achava muito simpáticos e educados.
- Continua, Linda – incentivou o filho com um olhar de advertência à irmã.
- Eu já estava na metade da rampa quando aquela senhora do 12º, que vive viajando, apareceu com uma mala imensa.
- Lembro que ela sorriu para mim e quando virou para falar algo para o porteiro, esqueceu de segurar a mala, que desceu pela rampa, me atropelou e me jogou em cima da floreira.
- Eu estava com as mãos ocupadas e não deu tempo de amortecer a queda. Quando eu vi, o “seu” Geraldo e os meninos do nono estavam lá tentando me levantar.
- Ai, não mãe! Os meninos do nono viram você se estabacar na portaria do prédio??!!! – falou alto a garota, agora sem nem lembrar dos machucados da mãe.
- Maria Clara – falou a mãe com aquela calma assustadora que as mães conseguem manter quando querem esganar alguém.
- Eles não só me ajudaram a levantar como também a recolher as coisas que eu carregava e estavam espalhadas pela entrada do prédio! E foram muito educados, como sempre. E, também, ficaram mais preocupados comigo do que você parece estar agora!
- Foi mal mãe, é claro que eu me preocupo – falou a garota pensando que mãe com esse tipo de chantagem consegue fazer um estrago maior que o exterminador do futuro.
Mas, então, o Tiago tinha que mandar a dele:
- É isso mesmo, Maria Clara, como você pode pensar nisso agora?
E prosseguiu:
- Mas, mãe, diz uma coisa...hum...você caiu de costas para a rua ou para a floreira?
Antes mesmo de ver a reação da mãe a garota pensou:
- Yes! – Agora baixou o garoto/filho/ciumento e sem esperar mandou:
- O que é isso Tiago??!! Nessa situação e você preocupado com quem pode ter olhado para...hã...as costas dela?
- Chegaaa! – agora a mãe gritou – eu quero comer! Vou comer tudo, todas as calorias que tenho e que não tenho direito!
Levantou rápido do sofá e mancando, com “ais”, “uis” pelo caminho foi até a mesa da cozinha.
Os dois, Tiago e Maria Clara, ficaram em silêncio sem coragem de acompanhar a mãe e não querendo estar por perto quando ela visse “tudo” que ia comer.
Silêncio.
De repente ouvem um “ai” acompanhado de uma risada. Em seguida um “ui” já no meio de uma gargalhada e a mãe surge na sala com o pote de sorvete e três colheres nas mãos.
Os dois começaram com uma risada tímida e já soltavam gargalhadas enquanto Tiago corria para salvar o pote de sorvete que quase caía das mãos da mãe.
A mãe ria enquanto fazia caretas de dor.
- Vocês não imaginam a cara do “seu” Geraldo, coitado! E os meninos, então? Dois me ajudando e o outro correndo para pegar a mala que continuava deslizando pela calçada!
Enquanto os três atacavam o pote de sorvete, Tiago ligava para pedir uma pizza.
Maria Clara olhava feliz para o rosto agora sorridente da mãe que vingava-se do tombo tomando sorvete direto do pote!
- Os meninos do nono... Meu tênis! - pensou a garota. Mas, olhando para o estado da mãe decidiu:
- Ah! Abafa... - e partiu animada para o pote de sorvete.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Formatura
Maria Clara estava eufórica! Terminou a oitava série passando “direto”, já estava em férias há duas semanas e, finalmente, chegava o dia do baile de formatura.
Seu vestido era “per” (perfeito), a sandália linda, nem alta demais - daquelas em que as garotas ficam se equilibrando e não tiram os pés do chão a cada passo, andando como zumbis em filmes de terror – nem baixa demais, o que dava mais charme (palavra da mãe) e fazia com que ela parecesse mais “sou mais eu” (expressão de Maria Clara, claro!).
Cabeleireiro marcado: cabelo, pés e mãos; maquiagem, como ficou decidido em conversa com a mãe, seria feita em casa. Só faltava agora entregar os convites.
Convites...ai, tia Marta e tio Orlando haviam confirmado a presença:
- “Claaaro que nós vamos” – disse a tia ao telefone, naquele seu tom agudo que machucaria o tímpano de um desprevenido. Maria Clara já havia alertado a mãe para esse risco, mas ela não pareceu levar a sério.
- “Imagina que vou perder a formatura dessa coisa liiinda da titiiiaaa” – frisou a tia causando um calafrio na garota.
- Mãe do céu – falou a menina jogando-se no sofá – a tia Marta e o tio Orlando vão ao baile!
- Maria Clara – disse a mãe, com uma expressão séria demais para o gosto da menina...mal sinal! – Você tem que parar com essa implicância com sua tia, ela adora você. Eu sei que às vezes ela exagera um pouco, mas você precisa ser mais tolerante e menos implicante.
- Implicante?! “Exagera um pouco”??!! – falou a garota com os olhos muito abertos e pronunciando as palavras com ênfase em cada sílaba.
- Sou implicante só porque ela aperta minhas bochechas e de quem mais estiver comigo, balançando nossa cabeça de um lado para o outro? Me chama de fofucha da titia, dando gritimhos quando me encontra na rua/shopping/festas ou qualquer outro lugar? Ah, manhê !!!! – metralhou a garota sem parar para respirar.
- Certo – disse a mãe sentando-se ao lado da menina que fungava no sofá.
- Vamos fazer o seguinte: eu falo com sua tia que por um equívoco os convites não vieram na quantidade solicitada e, com jeito, explico a ela que, apesar de estar tentando não tenho certeza de que consiga arrumar outros até a hora do baile. Fica bom assim para você?
Enquanto a mãe falava a irritação estampada no rosto da garota foi transformando-se em incredulidade. Ela continuou a examinar o rosto tranqüilo da mãe ficando mais espantada a cada minuto. Como a mãe permanecia em calmo silêncio a menina mandou:
- Mãe do céu, não acredito que você tenha coragem de fazer uma coisa dessas com a coitada da tia Marta. Como pode ter passado pela sua cabeça fazer uma coisa tão horrível?
Para surpresa de Maria Clara a mãe começou a rir; primeiro um sorrisinho meio disfarçado, depois uma risada que sacudia seu corpo até que explodiu numa gargalhada. A menina já não entendia mais nada, quando a mãe, enxugando as lágrimas que rolavam pelo seu rosto de tanto rir falou:
- Eu não, Maria Clara; É você quem tem que me responder se teria coragem para fazer isso.
A menina, espantada, abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. A mãe continuou:
- Você estava à beira da histeria. Eu apenas apresentei a única solução para o “seu” problema. Então – prosseguiu a mãe – você quer fazer essa coisa tão...que expressão você usou mesmo filha?
- Ai, manhê...chega, entendi – falou a garota e olhando meio de lado para a mãe continuou:
- Bom, vai ter tanta gente no baile né... - agora, já com um sorrisinho no rosto continuou:
- Acho que não vai ser muito difícil eu fugir, me esconder e você vai me ajudar, é claro, né mãe? Você pode...hã...abafar a tia Marta?
Seu vestido era “per” (perfeito), a sandália linda, nem alta demais - daquelas em que as garotas ficam se equilibrando e não tiram os pés do chão a cada passo, andando como zumbis em filmes de terror – nem baixa demais, o que dava mais charme (palavra da mãe) e fazia com que ela parecesse mais “sou mais eu” (expressão de Maria Clara, claro!).
Cabeleireiro marcado: cabelo, pés e mãos; maquiagem, como ficou decidido em conversa com a mãe, seria feita em casa. Só faltava agora entregar os convites.
Convites...ai, tia Marta e tio Orlando haviam confirmado a presença:
- “Claaaro que nós vamos” – disse a tia ao telefone, naquele seu tom agudo que machucaria o tímpano de um desprevenido. Maria Clara já havia alertado a mãe para esse risco, mas ela não pareceu levar a sério.
- “Imagina que vou perder a formatura dessa coisa liiinda da titiiiaaa” – frisou a tia causando um calafrio na garota.
- Mãe do céu – falou a menina jogando-se no sofá – a tia Marta e o tio Orlando vão ao baile!
- Maria Clara – disse a mãe, com uma expressão séria demais para o gosto da menina...mal sinal! – Você tem que parar com essa implicância com sua tia, ela adora você. Eu sei que às vezes ela exagera um pouco, mas você precisa ser mais tolerante e menos implicante.
- Implicante?! “Exagera um pouco”??!! – falou a garota com os olhos muito abertos e pronunciando as palavras com ênfase em cada sílaba.
- Sou implicante só porque ela aperta minhas bochechas e de quem mais estiver comigo, balançando nossa cabeça de um lado para o outro? Me chama de fofucha da titia, dando gritimhos quando me encontra na rua/shopping/festas ou qualquer outro lugar? Ah, manhê !!!! – metralhou a garota sem parar para respirar.
- Certo – disse a mãe sentando-se ao lado da menina que fungava no sofá.
- Vamos fazer o seguinte: eu falo com sua tia que por um equívoco os convites não vieram na quantidade solicitada e, com jeito, explico a ela que, apesar de estar tentando não tenho certeza de que consiga arrumar outros até a hora do baile. Fica bom assim para você?
Enquanto a mãe falava a irritação estampada no rosto da garota foi transformando-se em incredulidade. Ela continuou a examinar o rosto tranqüilo da mãe ficando mais espantada a cada minuto. Como a mãe permanecia em calmo silêncio a menina mandou:
- Mãe do céu, não acredito que você tenha coragem de fazer uma coisa dessas com a coitada da tia Marta. Como pode ter passado pela sua cabeça fazer uma coisa tão horrível?
Para surpresa de Maria Clara a mãe começou a rir; primeiro um sorrisinho meio disfarçado, depois uma risada que sacudia seu corpo até que explodiu numa gargalhada. A menina já não entendia mais nada, quando a mãe, enxugando as lágrimas que rolavam pelo seu rosto de tanto rir falou:
- Eu não, Maria Clara; É você quem tem que me responder se teria coragem para fazer isso.
A menina, espantada, abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. A mãe continuou:
- Você estava à beira da histeria. Eu apenas apresentei a única solução para o “seu” problema. Então – prosseguiu a mãe – você quer fazer essa coisa tão...que expressão você usou mesmo filha?
- Ai, manhê...chega, entendi – falou a garota e olhando meio de lado para a mãe continuou:
- Bom, vai ter tanta gente no baile né... - agora, já com um sorrisinho no rosto continuou:
- Acho que não vai ser muito difícil eu fugir, me esconder e você vai me ajudar, é claro, né mãe? Você pode...hã...abafar a tia Marta?
domingo, 3 de janeiro de 2010
A nova diarista.
Maria Clara gostava de ler e guardava seus livros desde pequena, colocando-os em prateleiras fixadas nas paredes do seu quarto.
Tinha uma lista dos livros que queria ler atualizada regularmente; pesquisava preço e colocava o valor do total no final da folha. A soma, ela reconhecia, era, quase sempre, bem significativa e, para a mãe, alarmante!
Assim, desenvolveu uma tática para não assustar a mãe logo de cara: ao mostrar a lista, colocava, estrategicamente, o polegar sobre o valor que representava o “total”.
Dessa forma, a garota sabia que a conversa rolaria mais tranqüila e acabaria, como sempre, com mãe e filha assinalando os livros que teriam prioridade na compra.
Pensando em tudo isso, saiu do quarto, animadíssima com a lista nas mãos, chamando pela mãe.
Encontrou-a no canto da sala, onde ficava seu “escritório”. Ela estava parada, ou melhor, paralisada, olhando fixamente para sua mesa de trabalho.
- Mãe, a minha lista está perfei...ta- falou, com a voz quase desaparecendo no final da frase e já emendando:
- Ai, não...a diarista nova!
A mãe continuava imóvel, olhar fixo no canto da sala, onde gostava de ficar trabalhando, lendo, escrevendo, pesquisando. Lá era o “território dela” e ai de quem invadisse, mudasse de lugar qualquer pedacinho de papel, alterando a organização que só ela entendia. Ela e mais ninguém podia mexer ali. Ela limpava, tirava o pó e mantinha a sua organização.
Todos que freqüentavam a casa, incluindo a gata da família, sabiam que aquele espaço era intocável, abrangendo todo e qualquer objeto, papel, clips ou ponta quebrada de lápis que fizesse parte dele. Na verdade, Maria Clara costumava dizer que se o “território da mãe”, fizesse parte de um filme americano teria uma placa “KEEP OUT” em letras vermelhas e fosforescentes.
Essa era a primeira recomendação que a mãe fazia quando uma nova diarista aparecia, como aconteceu naquele dia.
Gessy, esse era o nome da mulher que fez jus ao termo – diarista - e teve a atividade profissional na casa restrita a um único dia ao proclamar orgulhosa:
- Pronto, Dona Lívia, arrumei toda a sua papelada! Agora sim vai dar gosto ficar naquele canto e a senhora vai poder trabalhar direitinho!
Pronto - pensou Maria Clara - a invasora acabava de assinar seu pedido de demissão. O pior é que ela prosseguia falando, orgulhosa da empreitada!
- Aqueles papéis que a senhora rabiscou, - explicou Gessy - estão guardadinhos numa pasta dentro da terceira gaveta, os pedacinhos de papel que nem dava pra ler foram pro lixo, os livros na estante, que afinal é o lugar deles né Dona Lívia, prosseguia a destemida organizadora numa lista interminável.
Os papéis rabiscados eram, na verdade, manuscritos, e sim, a mãe não abria mão de fazer rascunhos e anotações manuscritas. Os livros, agora na estante, estavam antes sobre a mesa com as passagens que interessavam devida e cuidadosamente marcadas pelos ditos papeizinhos.
A mãe permanecia estática, sem mover um músculo, observando sua mesa arrumadinha.
- Mãe...? – tentou a garota.
Nada, nenhuma reação.
De repente o rosto da mãe ficou pálido, depois rosa, pálido de novo e mal se via o contorno dos lábios. Ela colocou as mãos nos bolsos dos shorts que junto com regatas eram seu uniforme de trabalho em casa e, lentamente olhou para a inimiga invasora.
Seu olhar era um misto daquela mulher que não largava o furador de gelo no filme sobre um serial killer, com “eu sei o que você fez com as minhas coisas neste verão ”.
Até hoje Maria Clara não sabe se foi o anjo da guarda da mulher ou a expressão no rosto da mãe que foi calando a falante Gessy que, pegando seu pagamento que estava em cima da mesa da cozinha e lembrando que estava em cima da hora para pegar seu ônibus, saiu apressada.
Na semana seguinte, a mãe estava trabalhando no seu canto, Maria Clara devorando o livro que figurava no topo da sua lista, quando a avó, de repente manda:
- Que coisa estranha...aquela moça tão boazinha, a Gessy, nunca mais apareceu. O que será que aconteceu?
A garota dá um salto do sofá, arrasta a avó para o quarto e suplica:
- Vó, tô pedindo, por favor, abafa o caso!!!!
Tinha uma lista dos livros que queria ler atualizada regularmente; pesquisava preço e colocava o valor do total no final da folha. A soma, ela reconhecia, era, quase sempre, bem significativa e, para a mãe, alarmante!
Assim, desenvolveu uma tática para não assustar a mãe logo de cara: ao mostrar a lista, colocava, estrategicamente, o polegar sobre o valor que representava o “total”.
Dessa forma, a garota sabia que a conversa rolaria mais tranqüila e acabaria, como sempre, com mãe e filha assinalando os livros que teriam prioridade na compra.
Pensando em tudo isso, saiu do quarto, animadíssima com a lista nas mãos, chamando pela mãe.
Encontrou-a no canto da sala, onde ficava seu “escritório”. Ela estava parada, ou melhor, paralisada, olhando fixamente para sua mesa de trabalho.
- Mãe, a minha lista está perfei...ta- falou, com a voz quase desaparecendo no final da frase e já emendando:
- Ai, não...a diarista nova!
A mãe continuava imóvel, olhar fixo no canto da sala, onde gostava de ficar trabalhando, lendo, escrevendo, pesquisando. Lá era o “território dela” e ai de quem invadisse, mudasse de lugar qualquer pedacinho de papel, alterando a organização que só ela entendia. Ela e mais ninguém podia mexer ali. Ela limpava, tirava o pó e mantinha a sua organização.
Todos que freqüentavam a casa, incluindo a gata da família, sabiam que aquele espaço era intocável, abrangendo todo e qualquer objeto, papel, clips ou ponta quebrada de lápis que fizesse parte dele. Na verdade, Maria Clara costumava dizer que se o “território da mãe”, fizesse parte de um filme americano teria uma placa “KEEP OUT” em letras vermelhas e fosforescentes.
Essa era a primeira recomendação que a mãe fazia quando uma nova diarista aparecia, como aconteceu naquele dia.
Gessy, esse era o nome da mulher que fez jus ao termo – diarista - e teve a atividade profissional na casa restrita a um único dia ao proclamar orgulhosa:
- Pronto, Dona Lívia, arrumei toda a sua papelada! Agora sim vai dar gosto ficar naquele canto e a senhora vai poder trabalhar direitinho!
Pronto - pensou Maria Clara - a invasora acabava de assinar seu pedido de demissão. O pior é que ela prosseguia falando, orgulhosa da empreitada!
- Aqueles papéis que a senhora rabiscou, - explicou Gessy - estão guardadinhos numa pasta dentro da terceira gaveta, os pedacinhos de papel que nem dava pra ler foram pro lixo, os livros na estante, que afinal é o lugar deles né Dona Lívia, prosseguia a destemida organizadora numa lista interminável.
Os papéis rabiscados eram, na verdade, manuscritos, e sim, a mãe não abria mão de fazer rascunhos e anotações manuscritas. Os livros, agora na estante, estavam antes sobre a mesa com as passagens que interessavam devida e cuidadosamente marcadas pelos ditos papeizinhos.
A mãe permanecia estática, sem mover um músculo, observando sua mesa arrumadinha.
- Mãe...? – tentou a garota.
Nada, nenhuma reação.
De repente o rosto da mãe ficou pálido, depois rosa, pálido de novo e mal se via o contorno dos lábios. Ela colocou as mãos nos bolsos dos shorts que junto com regatas eram seu uniforme de trabalho em casa e, lentamente olhou para a inimiga invasora.
Seu olhar era um misto daquela mulher que não largava o furador de gelo no filme sobre um serial killer, com “eu sei o que você fez com as minhas coisas neste verão ”.
Até hoje Maria Clara não sabe se foi o anjo da guarda da mulher ou a expressão no rosto da mãe que foi calando a falante Gessy que, pegando seu pagamento que estava em cima da mesa da cozinha e lembrando que estava em cima da hora para pegar seu ônibus, saiu apressada.
Na semana seguinte, a mãe estava trabalhando no seu canto, Maria Clara devorando o livro que figurava no topo da sua lista, quando a avó, de repente manda:
- Que coisa estranha...aquela moça tão boazinha, a Gessy, nunca mais apareceu. O que será que aconteceu?
A garota dá um salto do sofá, arrasta a avó para o quarto e suplica:
- Vó, tô pedindo, por favor, abafa o caso!!!!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Natal com tia Marta
Maria Clara não está muito animada com esse Natal. O irmão que agora estuda e trabalha em Minas Gerais não poderá vir; a tia que ela mais gosta também não; resultado...ah não, Natal na casa da tia Marta, de novo não!
Tia Marta é o tipo de pessoa que consegue dar exatamente os presentes que a vítima mais detesta. Não pelo preço ou qualidade. É diferente, parece que ela tem a varinha mágica invertida ou algo do gênero.
Houve uma época em que a garota não usava nada verde, por considerar uma traição ao seu time, Corinthians, que na verdade era o time do avô, do irmão e acabou sendo adotado por ela.
No Natal passado, a garota estava no auge da fase “verde só a natureza e a minha salada”. Toda a família, amigos, vizinhos, gatos e cachorros da redondeza sabiam disso.
A festa foi na casa da tia Marta, com direito ao tio vestido de Papai Noel e um monte de amigas da tia que comiam o tempo inteiro e apertavam as bochechas dos menores de vinte anos.
Chegada a hora da troca de presentes, tia Marta aparece com um volumoso presente envolto em papel metálico, do tipo espelhado e...verde!
Maria Clara vê a tia caminhar em sua direção com aquele sorrisinho de “você não vai acreditar”. Conforme a tia avança em sua direção ela tem a impressão de que o pacote vai crescendo como essas melecas pavorosas que aparecem em filmes americanos sobre alienígenas.
Corre os olhos pela sala à procura da mãe e vê que ela está tentando impedir que a avó, de noventa anos, pergunte a uma amiga da tia Marta para quando é o bebê. Pelo desespero estampado no rosto da mãe ela tem certeza que a dita senhora não está grávida.
Resignada com a delicada situação em que a mãe e ela se encontram, a garota resolve, então, apelar para a embromação. Começa a raspar levemente as unhas, supostamente tentando tirar a fita adesiva sem destruir o papel verde espelhado. Mas, tia Marta que não é simplesmente uma tia, mas sim a tia Marta, e só quem tem uma sabe o que isso significa, avança sobre o embrulho dizendo:
- Assim não, bobinha - Tem que rasgar o papel, por mais lindo que seja pra dar sorte! –e, sem piedade, parte para a destruição.
Na medida em que rasga o papel, pedaços dos mais variados tons de verde saltam diante dos olhos da garota; calça, camiseta, jaqueta e, por incrível que pareça, um par de meias!
Tia Marta colocava as peças próximas ao corpo da garota e chamando a atenção de todos perguntava se não achavam que ela ficava liiinda - assim mesmo, esticando os “is” - com aqueles tons de verde.
A menina, com um sorriso amarelo pregado no rosto vermelho, olhava em volta à procura da mãe ou de um buraco bem fundo, o que aparecesse primeiro.
A mãe surgiu antes que o buraco e, mal conseguindo disfarçar a vontade de rir, abraça a garota e fala baixinho:
- É...Natal colorido!
A garota, olhando a avó que escapulira e estava com as mãos na barriga da amiga da tia, responde:
- Colorido e irado!
A mãe, acompanhando o olhar da filha, fica pálida, depois rosa e vai assim até atingir o vermelho, põe a mão no peito e suspira. Maria Clara, segurando uma gargalhada, abraça a mãe e manda:
- Manhê...relaxa!
Sai para o jardim, arrastando a mãe e fala baixinho:
- Abafa o caso...
Tia Marta é o tipo de pessoa que consegue dar exatamente os presentes que a vítima mais detesta. Não pelo preço ou qualidade. É diferente, parece que ela tem a varinha mágica invertida ou algo do gênero.
Houve uma época em que a garota não usava nada verde, por considerar uma traição ao seu time, Corinthians, que na verdade era o time do avô, do irmão e acabou sendo adotado por ela.
No Natal passado, a garota estava no auge da fase “verde só a natureza e a minha salada”. Toda a família, amigos, vizinhos, gatos e cachorros da redondeza sabiam disso.
A festa foi na casa da tia Marta, com direito ao tio vestido de Papai Noel e um monte de amigas da tia que comiam o tempo inteiro e apertavam as bochechas dos menores de vinte anos.
Chegada a hora da troca de presentes, tia Marta aparece com um volumoso presente envolto em papel metálico, do tipo espelhado e...verde!
Maria Clara vê a tia caminhar em sua direção com aquele sorrisinho de “você não vai acreditar”. Conforme a tia avança em sua direção ela tem a impressão de que o pacote vai crescendo como essas melecas pavorosas que aparecem em filmes americanos sobre alienígenas.
Corre os olhos pela sala à procura da mãe e vê que ela está tentando impedir que a avó, de noventa anos, pergunte a uma amiga da tia Marta para quando é o bebê. Pelo desespero estampado no rosto da mãe ela tem certeza que a dita senhora não está grávida.
Resignada com a delicada situação em que a mãe e ela se encontram, a garota resolve, então, apelar para a embromação. Começa a raspar levemente as unhas, supostamente tentando tirar a fita adesiva sem destruir o papel verde espelhado. Mas, tia Marta que não é simplesmente uma tia, mas sim a tia Marta, e só quem tem uma sabe o que isso significa, avança sobre o embrulho dizendo:
- Assim não, bobinha - Tem que rasgar o papel, por mais lindo que seja pra dar sorte! –e, sem piedade, parte para a destruição.
Na medida em que rasga o papel, pedaços dos mais variados tons de verde saltam diante dos olhos da garota; calça, camiseta, jaqueta e, por incrível que pareça, um par de meias!
Tia Marta colocava as peças próximas ao corpo da garota e chamando a atenção de todos perguntava se não achavam que ela ficava liiinda - assim mesmo, esticando os “is” - com aqueles tons de verde.
A menina, com um sorriso amarelo pregado no rosto vermelho, olhava em volta à procura da mãe ou de um buraco bem fundo, o que aparecesse primeiro.
A mãe surgiu antes que o buraco e, mal conseguindo disfarçar a vontade de rir, abraça a garota e fala baixinho:
- É...Natal colorido!
A garota, olhando a avó que escapulira e estava com as mãos na barriga da amiga da tia, responde:
- Colorido e irado!
A mãe, acompanhando o olhar da filha, fica pálida, depois rosa e vai assim até atingir o vermelho, põe a mão no peito e suspira. Maria Clara, segurando uma gargalhada, abraça a mãe e manda:
- Manhê...relaxa!
Sai para o jardim, arrastando a mãe e fala baixinho:
- Abafa o caso...
domingo, 13 de dezembro de 2009
Mantendo o Combinado.
Maria Clara anda preocupada com a mãe. Nos últimos dias ela anda um pouco...estranha; não, estranha não mas...diferente, é isso, muitíssimo diferente.
A menina fica pensando sobre isso e vai listando mentalmente: roupas, cabelo, brincos (a mãe não sai sem eles), colares (os mais incomuns, de preferência) e constata que nisso continua tudo igual. A mãe gosta de jeans, camisetas, batas e bolsas sempre enormes, onde guarda tudo que não sabe onde colocar no momento. Não, definitivamente a mudança não é por aí. Acha que é no jeito, no olhar da mãe, especialmente quando olha para...ela!!?
É isso mesmo. Como aconteceu naquele dia em que chegou da escola e foi contar a super novidade (já não lembra qual) e a mãe acompanhou a história, mas parecia querer falar alguma coisa e acabou esquecendo o que era.
Flagrou o mesmo olhar no rosto da mãe quando, no domingo, estava conversando com o povo no Twitter, Orkut, MSN e mostrou para a mãe como a mão dela ficava mais clara e as unhas pareciam mais longas com aquele esmalte vermelho “Rubi”. Tirou a mão direita do teclado, ergueu-a e perguntou à mãe:
- E aí, gosta? Fiquei muito branca, né? Aliás, como é que alguém pode ser tão branca, mãe? Bom, apesar de que você é bem branquinha e tem mais pintinhas e meu pai não é nenhum morenaço...ô mãe, fala alguma coisa. Gostou?
- É...bom...a cor é bonita sim, mas você sempre gostou de cores claras...quero dizer, você sempre usava esmaltes quase sem cor, a não ser quando resolvia brincar com suas amiguinhas.
A menina, com os olhos arregalados, agora bem mais branca, manda:
- Mãe do céu!!! Brincar com minhas amiguinhas!!? Jura, promete, que nunca vai repetir isso quando elas estiverem por perto!
- Maria Clara, não comece um drama agora! Está bem, nem brincar nem amiguinhas. Mas não vejo onde está o absurdo disso, afinal até bem pouco tempo vocês adoravam brincar com as minhas coisas.
- Ai, manhêe!!! – a menina já estava em franco desespero.
- Ok, certo – retruca a mãe em tom conciliador.
- Mas tem uma coisa Maria Clara – assim mesmo, os dois nomes bem pronunciados.
- Aquilo que combinamos continua valendo, certo?
A menina lembra, revirando os olhos, mas com um sorriso querendo já aparecer, que “aquilo” significava que não era para beijar, ficar ou qualquer coisa do gênero e tomar cuidado com garotos.
Agora, já soltando sonoras gargalhadas, lembra o resto do combinado: mas se beijar ou ficar contar para sua mãe imediatamente!
- Ai, mãe, só você mesmo – disse a garota, já chorando de tanto rir.
- Não vejo motivo pra tanto espanto – agora a mãe já meio que sorria também.
- Mãe, você, primeiro, diz que não é para eu beijar nenhum garoto; em seguida você diz que, se por acaso, eu beijar, é pra contar de cara pra você. Dá pra crer? – a gargalhada aumentava e a mãe estava segurando a sua.
- Claro que dá Maria Clara. Eu não quero que isso aconteça já, mas se acontecer quero saber, ora!
- Manhê...você sabe que não tem nenhum garoto que eu queira ficar.
A mãe ia saindo do quarto, com um sorriso nos lábios quando ouve:
- Mãe do céu!!! Eu sabia que tinha uma coisa pra contar e com essa conversa toda estava esquecendo.
A mãe se volta, ainda na porta do quarto.
- Lembra do Betinho? Aquele garoto por quem eu era a-pai-xo-na-da na terceira série? Mãe do céu, ele tá gatíssimo e pediu meu MSN e o número do meu celular pra Lu! Tem mais: ele falou que vai na festa da Crica só pra me ver! É muito “per” – de perfeito – mãe!
Novamente a menina percebe aquela coisa diferente na mãe, mas passa rápido. Ainda parada com a mão na maçaneta da porta a mãe pergunta:
- Hã..filha...Maria Clara, você não acabou de dizer que não tem nenhum garoto que você queira ficar?
- Disse, ué...bom..hã...
- Quer saber – diz a mãe – por enquanto abafa o caso!
Lívia Where http://liviawhere.blogspot.com/
A menina fica pensando sobre isso e vai listando mentalmente: roupas, cabelo, brincos (a mãe não sai sem eles), colares (os mais incomuns, de preferência) e constata que nisso continua tudo igual. A mãe gosta de jeans, camisetas, batas e bolsas sempre enormes, onde guarda tudo que não sabe onde colocar no momento. Não, definitivamente a mudança não é por aí. Acha que é no jeito, no olhar da mãe, especialmente quando olha para...ela!!?
É isso mesmo. Como aconteceu naquele dia em que chegou da escola e foi contar a super novidade (já não lembra qual) e a mãe acompanhou a história, mas parecia querer falar alguma coisa e acabou esquecendo o que era.
Flagrou o mesmo olhar no rosto da mãe quando, no domingo, estava conversando com o povo no Twitter, Orkut, MSN e mostrou para a mãe como a mão dela ficava mais clara e as unhas pareciam mais longas com aquele esmalte vermelho “Rubi”. Tirou a mão direita do teclado, ergueu-a e perguntou à mãe:
- E aí, gosta? Fiquei muito branca, né? Aliás, como é que alguém pode ser tão branca, mãe? Bom, apesar de que você é bem branquinha e tem mais pintinhas e meu pai não é nenhum morenaço...ô mãe, fala alguma coisa. Gostou?
- É...bom...a cor é bonita sim, mas você sempre gostou de cores claras...quero dizer, você sempre usava esmaltes quase sem cor, a não ser quando resolvia brincar com suas amiguinhas.
A menina, com os olhos arregalados, agora bem mais branca, manda:
- Mãe do céu!!! Brincar com minhas amiguinhas!!? Jura, promete, que nunca vai repetir isso quando elas estiverem por perto!
- Maria Clara, não comece um drama agora! Está bem, nem brincar nem amiguinhas. Mas não vejo onde está o absurdo disso, afinal até bem pouco tempo vocês adoravam brincar com as minhas coisas.
- Ai, manhêe!!! – a menina já estava em franco desespero.
- Ok, certo – retruca a mãe em tom conciliador.
- Mas tem uma coisa Maria Clara – assim mesmo, os dois nomes bem pronunciados.
- Aquilo que combinamos continua valendo, certo?
A menina lembra, revirando os olhos, mas com um sorriso querendo já aparecer, que “aquilo” significava que não era para beijar, ficar ou qualquer coisa do gênero e tomar cuidado com garotos.
Agora, já soltando sonoras gargalhadas, lembra o resto do combinado: mas se beijar ou ficar contar para sua mãe imediatamente!
- Ai, mãe, só você mesmo – disse a garota, já chorando de tanto rir.
- Não vejo motivo pra tanto espanto – agora a mãe já meio que sorria também.
- Mãe, você, primeiro, diz que não é para eu beijar nenhum garoto; em seguida você diz que, se por acaso, eu beijar, é pra contar de cara pra você. Dá pra crer? – a gargalhada aumentava e a mãe estava segurando a sua.
- Claro que dá Maria Clara. Eu não quero que isso aconteça já, mas se acontecer quero saber, ora!
- Manhê...você sabe que não tem nenhum garoto que eu queira ficar.
A mãe ia saindo do quarto, com um sorriso nos lábios quando ouve:
- Mãe do céu!!! Eu sabia que tinha uma coisa pra contar e com essa conversa toda estava esquecendo.
A mãe se volta, ainda na porta do quarto.
- Lembra do Betinho? Aquele garoto por quem eu era a-pai-xo-na-da na terceira série? Mãe do céu, ele tá gatíssimo e pediu meu MSN e o número do meu celular pra Lu! Tem mais: ele falou que vai na festa da Crica só pra me ver! É muito “per” – de perfeito – mãe!
Novamente a menina percebe aquela coisa diferente na mãe, mas passa rápido. Ainda parada com a mão na maçaneta da porta a mãe pergunta:
- Hã..filha...Maria Clara, você não acabou de dizer que não tem nenhum garoto que você queira ficar?
- Disse, ué...bom..hã...
- Quer saber – diz a mãe – por enquanto abafa o caso!
Lívia Where http://liviawhere.blogspot.com/
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Maria Clara

Maria Clara tem catorze anos, olhos castanhos, cabelos longos e encaracolados, uma profusão de cachos que ora ama, ora jura que vai arrancar fio a fio. Somente a mãe e umas poucas pessoas empregam seu nome na forma composta. É chamada de Clara, Clarinha, Maria e também Mariazinha.
Tem oscilações de humor que vão de “como a vida é per!!! (de perfeita)” a “furaram a minha nuvem (meu mundo caiu...).”
Em plena segunda-feira chegou da escola como uma ventania súbita, já disparando
- “Mãe do céu!“
É como sempre inicia o relato de algo excepcional que aconteceu no colégio, na casa da amiga, no shopping, na internet, enfim nos lugares em que ela ama estar e se pudesse estaria em todos ao mesmo tempo.
Prossegue, contando a história, como uma metralhadora desgovernada, mal parando para respirar.
Caso a mãe tenha algo a dizer, um recado a dar, uma pergunta, pode esquecer. Qualquer interrupção só será possível quando ela terminar a história importantíssima, do fato mais emocionante, que tanto pode ser o “oi” cheio de charme e significados dado pelo menino por quem ela está, atualmente, a-pai-xo-na-da, como também o desabamento do prédio do colégio.
De repente toca o telefone e ela dispara para atender a amiga – Lu – com quem estava até quinze minutos atrás.
O assunto prossegue, comentado com a amiga que presenciou o acontecimento e, simultaneamente, contado à mãe, que continua esperando uma brecha, uma respiração, para poder falar.
Com a participação da amiga ao telefone, o fato vai tomando uma proporção mais emocionante, a agitação ganha níveis estratosféricos, para total desespero da mãe, que precisa dar seu recado, almoçar e correr para o trabalho.
De repente a mãe ouve o sinal familiar de alguém falando no Messenger.
Mas, espera: ela chegou da escola e, com a mochila ainda nas costas começou a contar a história à mãe, atendeu o telefone, continuou a história...afinal, em que momento dessa trajetória, a mãe piscou e ela teve tempo de ligar o computador, enquanto contava a história, atendia o telefone, continuava a história?
Enquanto acabava de colocar a comida na mesa – função de Maria Clara – a mãe, cismada, revia mentalmente a sequência de tudo, pois o computador não ficava ligado durante a noite. Isso ela checava sempre.
Nesse momento a garota chega na sala e solta:
- Credo mãe...que cara é essa??? O que você queria falar mesmo?”
A mãe, voltando de um lugar que só mães de Marias Claras conhecem, olha a menina, pensa e responde:
- Esqueci!
- Ô mãe!!! Depois eu que vivo no mundo da lua né?
Quer saber? Abafa o caso!
Lívia Where http://liviawhere.blogspot.com/
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
A história começa amanhã
Já é muito tarde e se minha mãe me pega acordada, escrevendo a essa hora nem quero pensar...o resto fica pra amanhã.
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