segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Formatura

Maria Clara estava eufórica! Terminou a oitava série passando “direto”, já estava em férias há duas semanas e, finalmente, chegava o dia do baile de formatura.
Seu vestido era “per” (perfeito), a sandália linda, nem alta demais - daquelas em que as garotas ficam se equilibrando e não tiram os pés do chão a cada passo, andando como zumbis em filmes de terror – nem baixa demais, o que dava mais charme (palavra da mãe) e fazia com que ela parecesse mais “sou mais eu” (expressão de Maria Clara, claro!).
Cabeleireiro marcado: cabelo, pés e mãos; maquiagem, como ficou decidido em conversa com a mãe, seria feita em casa. Só faltava agora entregar os convites.
Convites...ai, tia Marta e tio Orlando haviam confirmado a presença:
- “Claaaro que nós vamos” – disse a tia ao telefone, naquele seu tom agudo que machucaria o tímpano de um desprevenido. Maria Clara já havia alertado a mãe para esse risco, mas ela não pareceu levar a sério.
- “Imagina que vou perder a formatura dessa coisa liiinda da titiiiaaa” – frisou a tia causando um calafrio na garota.
- Mãe do céu – falou a menina jogando-se no sofá – a tia Marta e o tio Orlando vão ao baile!
- Maria Clara – disse a mãe, com uma expressão séria demais para o gosto da menina...mal sinal! – Você tem que parar com essa implicância com sua tia, ela adora você. Eu sei que às vezes ela exagera um pouco, mas você precisa ser mais tolerante e menos implicante.
- Implicante?! “Exagera um pouco”??!! – falou a garota com os olhos muito abertos e pronunciando as palavras com ênfase em cada sílaba.
- Sou implicante só porque ela aperta minhas bochechas e de quem mais estiver comigo, balançando nossa cabeça de um lado para o outro? Me chama de fofucha da titia, dando gritimhos quando me encontra na rua/shopping/festas ou qualquer outro lugar? Ah, manhê !!!! – metralhou a garota sem parar para respirar.
- Certo – disse a mãe sentando-se ao lado da menina que fungava no sofá.
- Vamos fazer o seguinte: eu falo com sua tia que por um equívoco os convites não vieram na quantidade solicitada e, com jeito, explico a ela que, apesar de estar tentando não tenho certeza de que consiga arrumar outros até a hora do baile. Fica bom assim para você?
Enquanto a mãe falava a irritação estampada no rosto da garota foi transformando-se em incredulidade. Ela continuou a examinar o rosto tranqüilo da mãe ficando mais espantada a cada minuto. Como a mãe permanecia em calmo silêncio a menina mandou:
- Mãe do céu, não acredito que você tenha coragem de fazer uma coisa dessas com a coitada da tia Marta. Como pode ter passado pela sua cabeça fazer uma coisa tão horrível?
Para surpresa de Maria Clara a mãe começou a rir; primeiro um sorrisinho meio disfarçado, depois uma risada que sacudia seu corpo até que explodiu numa gargalhada. A menina já não entendia mais nada, quando a mãe, enxugando as lágrimas que rolavam pelo seu rosto de tanto rir falou:
- Eu não, Maria Clara; É você quem tem que me responder se teria coragem para fazer isso.
A menina, espantada, abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. A mãe continuou:
- Você estava à beira da histeria. Eu apenas apresentei a única solução para o “seu” problema. Então – prosseguiu a mãe – você quer fazer essa coisa tão...que expressão você usou mesmo filha?
- Ai, manhê...chega, entendi – falou a garota e olhando meio de lado para a mãe continuou:
- Bom, vai ter tanta gente no baile né... - agora, já com um sorrisinho no rosto continuou:
- Acho que não vai ser muito difícil eu fugir, me esconder e você vai me ajudar, é claro, né mãe? Você pode...hã...abafar a tia Marta?

domingo, 3 de janeiro de 2010

A nova diarista.

Maria Clara gostava de ler e guardava seus livros desde pequena, colocando-os em prateleiras fixadas nas paredes do seu quarto.
Tinha uma lista dos livros que queria ler atualizada regularmente; pesquisava preço e colocava o valor do total no final da folha. A soma, ela reconhecia, era, quase sempre, bem significativa e, para a mãe, alarmante!
Assim, desenvolveu uma tática para não assustar a mãe logo de cara: ao mostrar a lista, colocava, estrategicamente, o polegar sobre o valor que representava o “total”.
Dessa forma, a garota sabia que a conversa rolaria mais tranqüila e acabaria, como sempre, com mãe e filha assinalando os livros que teriam prioridade na compra.
Pensando em tudo isso, saiu do quarto, animadíssima com a lista nas mãos, chamando pela mãe.
Encontrou-a no canto da sala, onde ficava seu “escritório”. Ela estava parada, ou melhor, paralisada, olhando fixamente para sua mesa de trabalho.
- Mãe, a minha lista está perfei...ta- falou, com a voz quase desaparecendo no final da frase e já emendando:
- Ai, não...a diarista nova!
A mãe continuava imóvel, olhar fixo no canto da sala, onde gostava de ficar trabalhando, lendo, escrevendo, pesquisando. Lá era o “território dela” e ai de quem invadisse, mudasse de lugar qualquer pedacinho de papel, alterando a organização que só ela entendia. Ela e mais ninguém podia mexer ali. Ela limpava, tirava o pó e mantinha a sua organização.
Todos que freqüentavam a casa, incluindo a gata da família, sabiam que aquele espaço era intocável, abrangendo todo e qualquer objeto, papel, clips ou ponta quebrada de lápis que fizesse parte dele. Na verdade, Maria Clara costumava dizer que se o “território da mãe”, fizesse parte de um filme americano teria uma placa “KEEP OUT” em letras vermelhas e fosforescentes.
Essa era a primeira recomendação que a mãe fazia quando uma nova diarista aparecia, como aconteceu naquele dia.
Gessy, esse era o nome da mulher que fez jus ao termo – diarista - e teve a atividade profissional na casa restrita a um único dia ao proclamar orgulhosa:
- Pronto, Dona Lívia, arrumei toda a sua papelada! Agora sim vai dar gosto ficar naquele canto e a senhora vai poder trabalhar direitinho!
Pronto - pensou Maria Clara - a invasora acabava de assinar seu pedido de demissão. O pior é que ela prosseguia falando, orgulhosa da empreitada!
- Aqueles papéis que a senhora rabiscou, - explicou Gessy - estão guardadinhos numa pasta dentro da terceira gaveta, os pedacinhos de papel que nem dava pra ler foram pro lixo, os livros na estante, que afinal é o lugar deles né Dona Lívia, prosseguia a destemida organizadora numa lista interminável.
Os papéis rabiscados eram, na verdade, manuscritos, e sim, a mãe não abria mão de fazer rascunhos e anotações manuscritas. Os livros, agora na estante, estavam antes sobre a mesa com as passagens que interessavam devida e cuidadosamente marcadas pelos ditos papeizinhos.
A mãe permanecia estática, sem mover um músculo, observando sua mesa arrumadinha.
- Mãe...? – tentou a garota.
Nada, nenhuma reação.
De repente o rosto da mãe ficou pálido, depois rosa, pálido de novo e mal se via o contorno dos lábios. Ela colocou as mãos nos bolsos dos shorts que junto com regatas eram seu uniforme de trabalho em casa e, lentamente olhou para a inimiga invasora.
Seu olhar era um misto daquela mulher que não largava o furador de gelo no filme sobre um serial killer, com “eu sei o que você fez com as minhas coisas neste verão ”.
Até hoje Maria Clara não sabe se foi o anjo da guarda da mulher ou a expressão no rosto da mãe que foi calando a falante Gessy que, pegando seu pagamento que estava em cima da mesa da cozinha e lembrando que estava em cima da hora para pegar seu ônibus, saiu apressada.
Na semana seguinte, a mãe estava trabalhando no seu canto, Maria Clara devorando o livro que figurava no topo da sua lista, quando a avó, de repente manda:
- Que coisa estranha...aquela moça tão boazinha, a Gessy, nunca mais apareceu. O que será que aconteceu?
A garota dá um salto do sofá, arrasta a avó para o quarto e suplica:
- Vó, tô pedindo, por favor, abafa o caso!!!!
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